Colunista: José Antonio Degrazia
Jornalista

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“TROCARIA A MEMÓRIA DE TODOS OS BEIJOS QUE ME DESTE POR UM ÚNICO BEIJO TEU”. (Miguel Esteves Cardoso)

   A imagem da mãe beijando a madeira fria do caixão onde repousa o corpo da filha ou do filho é um retrato fiel do tamanho da tragédia ocorrida na boate Kiss,em Santa Maria.

   No gesto desta senhora, a representação de todos os pais que choram junto a um esquife que lhes guarda um pedaço do coração.

   Os jovens não deveriam morrer cedo, no início da ‘Festa da Vida’, quando se enchem de alegria os salões enfeitados de sons e de luzes.

   Os moços não teriam de morrer antes de seus pais, invertendo a ordem natural.

   No Brasil os adolescentes estão morrendo em número cada vez maior, antes dos 21 anos.

   Nos acidentes de trânsito, na violência urbana, no consumo de drogas, grande parte da mocidade brasileira finaliza seus dias, enquanto outra parte fica marcada para sempre.

   Há quem aponte o mundo moderno com suas “armadilhas eletrônicas” como responsáveis pelas perdas irreparáveis desses ‘jovens afoitos’. E quando acontece uma desgraça como essa da boate Kiss,em Santa Maria, a tese ganha reforço extra.

   Nos pronunciamentos das autoridades e dos técnicos em Segurança e Suporte para Eventos, é sublinhada a necessidade de identificar as falhas e os seus responsáveis.

   O pesquisador da Coordenação de Programasem Pós Graduaçãoem Engenharia da UFRJ. Moacir Duarte, diz que as pessoas foram vítimas de uma “desorganização primaria”. “Uma vistoria simples, de menos de duas horas, feitas por um bombeiro, bastaria para vetar o local para a realização de shows. Há uma cadeia enorme de responsabilidades”, afirmou Duarte.

   Para Valdir Pignatta e Silva, professor da Poli/USP e especialista em segurança contra incêndios, houve ali uma sucessão “absurda” de erros. Ele cita a falta de sinalização para a saída e o fato de haver apenas uma porta de acesso ao local. Também assegura que o teto da boate era feito de material inflamável. Pignatta e Silva, da Poli/USP, disse: “Infelizmente, o fato de existir uma casa com capacidade para mais de mil pessoas, em um ambiente totalmente fechado, não deu um alerta na cabeça de ninguém. Ainda mais com objetos pirotécnicos no palco”.

   Com os refletores do mundo inteiro voltado para o Brasil, por causa da realização da Copa do Mundo de 2014 aqui, multiplicam-se as interrogações dos jornalistas internacionais e nacionais.

– Se havia uma só saída, que também era a entrada, no local, como foi aprovado pelas autoridades para os fins a que se destinava.

– Se o uso de artefatos pirotécnicos, como sinalizadores, é restrito aos lugares abertos, como é que foi permitido em recinto fechado, na apresentação da banda Gurizada Fandangueira.

– Se o alvará da Boate Kiss estava vencido desde agosto de 2012, estando em tramitação o processo de renovação, onde e como foi feita a vistoria e emitida licença para funcionamento da boate?

   É preciso dizer que houve uma “absurda sucessão de omissões”. E quem pode garantir que a corrupção não seja, no final das contas, a causa principal dessa tragédia?

   Com as ultimas linhas da estupenda crônica de Fabrício Carpinejar, fecho este comentário:

 

“A saída era uma só  e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos jovens sem o beijo da mãe, do pai, dos irmãos...

Os telefones ainda tocam nos peitos das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atende e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido”.

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