Colunista: Ricardo Fitz
 Ricardo Fitz Pereira: Psicólogo Clínico

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Dançando de olhos fechados! - ou sobre a (des)confiança em uma análise!

Em quem confiar hoje em dia? Se ao menos conseguimos confiar em nós mesmos! Há autoconfiança se há autoestima, mas esse jogo unitário, essa autoproclamação é solitária, e pode levar a um estado depressivo, se não maníaco.

            Além de psicanalista, sou professor e dançarino de danças folclóricas germânicas, um estilo que de fato preza pelo coletivo, pois creio que no passado as necessidades uniam muito mais do que as ideologias atuais. Certo de que muitos hão de discordar a respeito disso, basta conhecer o folclore germânico e constatar essa dádiva.

            Pois bem, um dia desses em um ensaio propus aos dançarinos uma brincadeira, um exercício simples, mas que exigia coragem. A tarefa era a seguinte: aos pares, um rapaz e uma moça deveriam dançar uma dança de integração onde um deles deveria estar de olhos fechados (é bem verdade que eles já sabiam a dança). Mas o desafio era confiar ao outro a condução daquilo que se fazia com o corpo sem a percepção da visão.

            Para uma psicologia clínica, principalmente para uma psicanálise a percepção do mundo e a permissão que o indivíduo consegue ou não dar aos outros certamente define entre um estado de saúde e bem estar e um estado de sofrimento e dor. Ser psicanalista e professor dançarino são as minhas paixões, na primeira escutar o desejo das pessoas (em um senso comum desejo lê-se: felicidade e sofrimento eternamente ligados) e saber que posso ajuda-los cuidando de algo tão precioso; já na segunda, minha alegria está em cultivar o espírito dos antepassados, nisso que é tão caro a mim, a expressão artística. Já não tenho vergonha em dizer, sou melhor psicólogo do que dançarino eu confesso!

            Imaginem para aqueles que nunca estiveram em um consultório, deitados em um divã, que só é Divã se por trás, preservado pela “invisibilidade”, está o psicanalista. Entregar a dor ao outro é um ato de muitos significados (por isso cada paciente é um paciente, assim como cada psicanalista é um para cada paciente). E nessa coisa de falar ao outro reside uma bela convergência: Percepção e Permissão. Costumo chamar isso de coragem.

            O conceito de ética amplamente desenvolvido pelos filósofos, sociólogos, cientistas políticos e homens do direito ao longo dos séculos nos permitem dizer que ela existe. Além disso, mais importante que a própria existência é a constatação de que podemos exercê-la (Liberdade). Ironicamente acredito que para os psicólogos não basta só falar, é preciso receber as pessoas em seu setting terapêutico (quem é da área sabe o peso e a responsabilidade disso). Acolher pessoas e saber que em algum momento essas pessoas corajosas vão precisar confiar a nós algo de suas intimidades é de um compromisso sem precedentes. E sim, elas também podem desconfiar de tudo aquilo que ouvimos, falamos ou sabemos por que não? Aqui está o exercício que fortalece o que todos querem, aquela autoconfiança e autoestima, não é mesmo? A vivacidade das cores da existência psíquica nos sujeitos desejantes é intensa quando trabalhamos com a clínica. Eu percebo rapidamente essas tonalidades em meu trabalho, o analisando, obviamente demora um pouco mais (pois enxergar algo nem sempre se trata de consciência e visão). Mas basta que ele “feche os olhos” e permita-se conduzir-se em suas próprias incertezas para que logo se cure da dor. Não há o que temer se o psicanalista realmente está ali!

            Se tratando de sofrimento psíquico o que vejo no drama humano é isso: Há casais que não confiam naqueles com quem formam o par consigo; há pais que desconfiam dos filhos o tempo inteiro e que no fundo a ferida narcísica está nessa paternidade e maternidade. Há filhos que não confiam em seus pais, seja desafiando a autoridade deles para assim criar uma espécie de amor ou porque de fato esses pais não estão lá, só da boca pra fora. Há aqueles que se quer percebem que na diferença do outro reside um clamor de igualdade e que a permissão é um gesto de coragem; e que na homoafetividade por exemplo, a igualdade não está no contorno dos corpos mas nas arestas do dual e estranho amor um pelo outro, estranho porque todo o amor É estranho, estrangeiro ao meu psiquismo (amor próprio é estar preso dentro de casa). Há aqueles que amam e estão impedidos magicamente de dizer isso, pois a permissão e a percepção sejam elas reais ou fantasias do objeto estão no outro antes de voltarem para si próprios. E o que dizer daqueles que amam todos os dias, incontáveis dias, mas estão loucos para dizer que não! Eu não amo! Bom, desses é melhor nem falar, deixar que eles mesmos digam por si próprios ao menos uma vez na vida!

            Considerações Clínicas a parte, para o grupo de danças o ensaio de olhos fechados serviu para nos divertirmos, para tornar os dançarinos mais fortes, mais confiantes e experientes para apresentações que estão por vir, até porque quando é olho no olho isso sempre foi mais difícil.

 

*Psicólogo e Psicanalista Clínico CRP:07/21427

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